As catedrais e a fé

Recorte da obra: "Salisbury Cathedral from the Meadows" (1831), de John Constable (1776-1837).

Nós moldamos nossos edifícios e, depois, nossos edifícios nos moldam.
Winston Churchill (1874-1965)



No grande esquema das coisas, a recente exoneração do reitor de Harvard, Lawrence Summers, foi um pequeno episódio. Mas suas implicações são amplas e vão além de Harvard — e além do mundo acadêmico.

David Riesman disse que estamos vivendo em catedrais do conhecimento, sem a fé que construiu essas catedrais. Estamos também vivendo numa sociedade livre sem a fé que construiu essa sociedade. — e sem a convicção e dedicação necessária para sustentá-la.

A fé vem em primeiro lugar. Séculos atrás, fazendeiros e outros indivíduos espalhados por New England fizeram as contribuições que eles puderam, tanto em dinheiro quanto em produção, e ajudaram a construir uma pequena escola em Cambridge, Massachusetts.

Hoje a Universidade de Harvard é renomada, mas ela perdeu o senso de dedicação que a construiu em 1636. Os professores dirigem a Universidade, como Lawrence Summers dolorosamente descobriu, e a dirigem em seus próprios e estreitos interesses.

Um professor titular em Harvard não ganha seu salário para ensinar estudantes de graduação. Isso pode ser feito por professores assistentes ou estudantes de pós-graduação. A pesquisa é o lugar para onde vão o dinheiro e o prestígio.

Summers queria que os professores não só ensinassem os estudantes de graduação mas lecionassem cursos introdutórios em currículos estruturados e parassem de dar notas altíssimas (conceito A), uma situação que leva a que 90% dos alunos se graduem com louvor.

Dar notas altas por atacado economiza o tempo dos professores, tempo que seria usado na discussão com os estudantes que recebessem conceitos B, C e D. Esse tempo está, agora, disponível para a pesquisa, para a elaboração de artigos e livros e para outras coisas que trazem maiores recompensas financeiras para os professores.

Lecionar cursos introdutórios em currículos estruturados pode proporcionar uma educação muito melhor aos alunos de graduação do que o atual estilo de oferecimentos de disciplinas, escolhidas pelos estudantes em conversas na lanchonete da escola. Mas esse tipo de docência consome muito tempo e, justamente por isso, muito poucas faculdades têm um currículo de verdade.

É muito mais fácil ensinar qualquer assunto, por mais limitado que seja, no qual o professor esteja fazendo pesquisa. Assim, em algumas faculdades pode haver um curso sobre a história do cinema, mas não um curso sobre a história da Inglaterra ou da Alemanha.

Os estudantes podem se graduar nas mais prestigiosas faculdades do país sem ter a menor ideia sobre a Segunda Guerra Mundial ou sobre qual a razão da Guerra Fria. Em Harvard, as chances da graduação com louvor são de 90% .

Nenhuma faculdade ou sociedade pode sobreviver somente de auto-interesses estreitos e individuais. Alguém tem de sacrificar, de algum modo, seus próprios interesses para o bem maior de uma instituição ou da sociedade.

Em situações de crise, alguns têm de colocar suas vidas em perigo, como bombeiros, policiais e militares ainda fazem. Mas, para isso, você tem de acreditar que a instituição e a sociedade são merecedoras de seus sacrifícios.

Temos passado, nas duas últimas gerações, por um processo de descrédito dos EUA enquanto sociedade, duas gerações nas quais uma glória fácil pode ser obtida desobedecendo-se regras e desprezando-se valores.

Será surpreende termos um número declinante de pessoas dispostas a se responsabilizarem e se sacrificarem para preservar a estrutura social que torna possível nossa sobrevivência e nosso progresso? Harvard é somente um pequeno exemplo.

Houve um tempo em que estar em guerra significava aceitar um grande peso de responsabilidade, mesmo entre os políticos. Depois de Wendell Willkie ter feito uma dura campanha contra Franklin D. Roosevelt em 1940, ganhando mais votos que qualquer republicano antes dele, ele se tornou, depois de tudo terminado, o enviado pessoal e especial de FDR para conversações com Winston Churchill.

Hoje, em meio a uma guerra, vemos ex-presidentes e candidatos a presidente derrotados dizendo ao mundo como estamos errados — à vezes, por isso, ganhando grandes somas em países estrangeiros — e membros do Congresso fazendo política partidária demagógica na área de segurança nacional.

Ainda temos a catedral da liberdade mas, quanto tempo ela durará sem a fé?


Por Thomas Sowell.
Publicado no website Mídia Sem Máscara, em 23 de março de 2006.
Texto original, em inglês, publicado em tsowell.com. Traduzido por Antônio Emílio Angueth de Araújo.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “Salisbury Cathedral from the Meadows” (1831), de John Constable (1776-1837).




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